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FAMOSOS - 18/09/2017

'Ainda tem preconceito, ainda tem desigualdade', diz Gilberto Gil

'Ainda tem preconceito, ainda tem desigualdade', diz Gilberto Gil

Prestes a se apresentar em Salvador com o show Refavela 40, Gilberto Gil conversa com o CORREIO sobre a importância do disco, sobre negritude, preconceito, avanços, retrocessos e finitude da vida: “o fato de não existir de novo não pode surpreender ninguém, porque todo mundo já não foi”. Confira.

O que significa, para você, reviver Refavela em Salvador?
A importância é que a Bahia talvez seja, de todas as terras do Brasil, a que mais tenha absorvido a cultura negra. Esse universo da presença negra no Brasil e no mundo tem sido sempre elemento da minha elaboração musical poética. Desde que tomei consciência da importância disso, do fato de ser de descendente negro.

Após 40 anos, o disco se mantém atual. Como é cantar essa negritude no Brasil de hoje?
São signos para os quais fui despertado naquela época e de lá pra cá tudo isso teve muitos desdobramentos. Um aprofundamento maior da consciência brasileira da importância do negro, mas não só do negro, de toda a sociedade brasileira. Ainda tem preconceito, ainda tem desigualdade específica dos negros no Brasil, mas as coisas diminuíram. A possibilidade de inserção aumentou. Várias coisas modificam o panorama nesses 40 anos. Ainda há muita dificuldade, ainda há muito a que se referir em relação a essa dificuldade do negro no Brasil. Mas a coisa andou, porque os tempos são outros.

Qual é a sua avaliação sobre o momento da cultura, hoje?
O mundo está mudando muito. Se você olha para 40 anos atrás, exatamente um dos temas da nossa conversa, o mundo era muito diferente. Coisas inimagináveis foram acontecendo de lá para cá. Revoluções significativas no campo das relações sociais, da compreensão sobre a sexualidade, sobre a cidadania. Várias coisas mudaram. Há 40, 50 anos, as sociedades ainda eram muito obedientes a regras antigas, a conceitos firmados a partir das religiões. Houve uma mexida muito grande. Não acho que haja retrocesso, porque tudo caminha junto, as coisas boas e ruins. Acontece ao mesmo tempo: avanço e retrocesso. Acha que não avançou nada em 40 anos? Avançou. A mortalidade infantil, por exemplo, regrediu. As crianças morrem menos, no entanto ainda é uma coisa séria, uma dificuldade muito grande em vários lugares. As crianças são afetadas por males que não existiam antes, do ponto de vista da psicologia e da psiquiatria. Tudo isso avançou muito, ao mesmo tempo vários problemas novos dão a impressão que retrocedeu.

Refavela 40 celebra a vida. Como você lida com a finitude?
Ainda hoje, na minha meditação, surgiram elementos de contato muito fortes entre vida e morte, no sentido de que a minha percepção ali, naquele momento, é de que eu estava ao mesmo tempo vivendo e morrendo. Quando a gente se entrega suficientemente à contemplação do ser, a gente vê que a totalidade é isso. Tudo é tudo, nada é nada e estão juntos o tempo todo. A finitude em relação a estar vivo, agora, e isso ter que terminar em algum momento, nos leva a imaginar que uns tantos momentos atrás, no meu caso 75 anos atrás, eu não estava aqui. No sentido da forma corpórea, na Terra, com carne, com osso, isso tudo não existia. O fato de não existir de novo não pode surpreender ninguém, porque todo mundo já não foi. Então tudo não será. A vida é trágica, mas eu consigo deslocar meu pensamento para esse plano [da leveza]. Há três horas atrás, tudo isso estava presente na minha meditação. Rezei para que o bem ganhe seu lugar, seu espaço. Que o sofrimento seja mitigado pela beleza, pelo amor, pela amizade, pelo encantamento... Então é isso. Eu rezo, vivo rezando.

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